o individualismo

 

A moda está presente para caracterizar, valorizar e destacar o indivíduo, que por sua vez tem a preocupação de ser si próprio, de se promover, de ser único e claro, de ser observado e notado. “A moda tem ligação com o prazer de ver, mas também com o de ser visto, de exibir-se ao olhar do outro.”

Ela abre espaço para a manifestação e a divulgação do gosto pessoal, resultando em um indivíduo solto, criador, dono de si próprio, que busca a interioridade e a autenticidade. Possibilita a diferenciação entre os seres, que por sua vez, causa a busca incansável pelo inédito; a moda é um investimento em si próprio. Não somente a moda, mas o mercado é um grande tentador e sedutor voltado à personalização do indivíduo e não mais ao coletivo, onde o valor principal da sociedade é o do indivíduo livre; sendo que hoje a liberdade é relativa. Livre de escolha, de opinião, expressão e de vontades.

Cada indivíduo busca sua satisfação pessoal e também sua realização profissional. Cada um busca se personalizar da forma que lhe achar melhor, e se adere a valores que lhes interessam, não mais tendo que se submeter a algum. No mercado, é visível a quantidade exacerbada de serviços, produtos, promoções, condições de pagamento e outros excessos que procuram facilitar a vida do indivíduo, devido à necessidade de se conseguir chegar a todos na sociedade - que já não se caracterizam por poucas variedades de gosto, vontade, preferência e necessidade - procurando diversificar o máximo possível dentro das possibilidades de escolha e satisfação de cada um deles, em uma verdadeira sedução à la carte.

O indivíduo não é somente empurrado pelos estímulos do mercado, mas como também pela busca na realização profissional, onde o indivíduo tende a trabalhar cada vez mais para poder gastar cada vez mais; valoriza a vida profissional a ponto de ser mais importante do que as relações sociais e pessoais. Tudo isso para que consiga se destacar na sociedade também por um ditado popular onde diz que “você é o que você consome” além de ser o que é pelo que você veste, que faz com que o indivíduo se torne um consumista em potencial.

Onde o culto à aparência, não sendo pela ação do vestir através da moda, se dá pela valorização material, o que também faz do indivíduo um ser superficial e fútil, preferindo valores estéticos aos valores das relações entre pessoas etc. Hoje em dia, boa parte das relações interpessoais se dão pela necessidade do indivíduo de se ter prazer imediato, que resultará na desvalorização do corpo pela satisfação sexual pessoal; ao ser humano reduzido ao estado de objeto. Surgem então, os relacionamentos que são movidos ao prazer e ao sexo, sendo o ponto de comum interesse entre os indivíduos na sociedade, já sem mistérios e também sem sedução. Passando a não existir a preocupação senão consigo, o desinteresse pelo próximo toma conta dessas atuais relações em todas as sociedades.

“O que eu ganho com isso?” Essa pergunta está presente no subconsciente da grande maioria da sociedade, onde nada é feito quando não existe algo em troca, quando não há o que ganhar como retorno; não existe mais a boa ação, as relações se dão somente por algum interesse pessoal, seja profissional ou particular, todos querem sair ganhando de alguma forma. Nenhuma pessoa disponibiliza o seu tempo, que hoje é mais curto do que nunca, para fazer algo por alguém caso não envolva um ganho próprio. Além dos fatores que a moda, o mercado e a própria sociedade proporciona para que o indivíduo seja indiferente a certas questões, há a proporção de acúmulo de estímulos e excessos de informação da qual o indivíduo passa sentir a necessidade de se focar em determinados assuntos e questões de seu interesse, pois não é possível abranger um todo e a entender de tudo, uma vez que o todo se tornou vasto demais.

O indivíduo passa a entender de poucos assuntos quando aprofundados, ou continua na superficialidade generalizada pela falta de centralização e pelo excesso de estímulos e opções, que resulta na sua indiferença e vazio.

“(...)indiferença por excesso e não por falta, por hiper-solicitação e não por privação. O que ainda consegue nos escandalizar? A apatia responde à pletora de informações, à sua velocidade de rotação; assim que registrado, um acontecimento é imediatamente esquecido, expulso por outros ainda mais sensacionalistas.” (LIPOVETSKY, 2005, p.22)