comportamento social

 

A relação do homem com o mundo é totalmente diferente da relação que outras espécies mantêm com o mesmo. Pode-se afirmar que a linguagem (como relação interindividual) é o que faz essa diferença, pois é através dela que o homem passa a entender o mundo como uma realidade objetiva, que independe dele e é possível de ser conhecida.

Esse processo de conhecimento o leva a ser um indivíduo que se relaciona com o mundo, e que não só mantém contatos, o que o faz estar “com o mundo” e não apenas “no mundo”.

A comunicação está presente no homem desde o seu surgimento, o que permitiu ao mesmo relacionar-se com os demais indivíduos de sua espécie, dando início assim às civilizações. É fundamental ressaltar que quando falamos em comunicação não nos referimos apenas à fala, e sim a toda forma de expressão capaz de passar mensagens e criar relações com o meio em que se está inserido – como a arte.

Por meio dessa vasta comunicação que o mundo proporciona ao indivíduo desde o seu nascimento, que o comportamento do ser humano vai sendo moldado. A personalidade de cada um surge em meio às influências que nos rodeiam, como a família, amigos, professores, chefes, ídolos. E é fato que essa personalidade precisa conviver da melhor maneira possível com as regras e leis da sociedade.

Na época da pós-modernidade, são inúmeras as mudanças que ocorrem nessa sociedade: nas artes, política, ciências, relações humanas. Em um passado não muito distante, o Estado mantinha o domínio dessa sociedade, controlando a vida dos indivíduos de maneira que se mantinha a boa ordem da civilização (não estamos aqui apoiando ou criticando essa forma, apenas expondo um fato). Com isso, a sociedade caminhava assertivamente rumo ao progresso – o grande objetivo da era moderna.

As tais mudanças da pós-modernidade como suas guerras, revoluções, desastres ambientais, ameaças de terror em massa, quebraram com a ordem e a visão de progresso do passado. A razão que controlava a sociedade outrora cedeu espaço às incertezas da existência e do futuro próximo. A falta de um objetivo comum, de um caminho a seguir faz com que o indivíduo dessa sociedade seja caracterizado pelo sentimento do vazio, do tédio e do niilismo – ainda que passe a maior parte do seu tempo buscando avivar as sensações de prazer e felicidade. Hoje a sociedade já não tem a força que tinha antigamente, pois não se tem um objetivo único. Já não se vêem cidades inteiras paradas com multidões reivindicando seus direitos e lutando por um motivo em comum, tão pouco a política faz ferver sua população dentro de suas promessas em prol de um mundo melhor – que já não mobilizam a massa. O individualismo se opõe às questões políticas quando relacionadas às questões sociais, pois a sociedade não passa de um conjunto de indivíduos autônomos e auto-suficientes.

Lipovetsky comenta a respeito da transição da sociedade moderna (que pensava e acreditava no futuro e na ciência, com características conquistadoras), para a então sociedade pós-moderna:

“[...] àquela em que reina a indiferença da massa, na qual domina o sentimento de repetição e estagnação, na qual a autonomia particular avança por si mesma, em que o novo é acolhido do mesmo modo que o velho, em que a inovação se torna banal, em que o futuro não é mais assimilado a um progresso inelutável.” (LIPOVETSKY, 2005, p.XVIII-XIX)

Em outras palavras, há a dissolução na confiança pela fé e pelo futuro, as pessoas querem viver o presente, “o momento atual, aqui e agora, querem se conservar jovens” e possuem a insaciável procura pela identidade e realização pessoal imediata, pela diversão e diferença. O indivíduo é estimulado a viver no imediato, o que muitas vezes o anula a obter qualquer tipo de tradição e herança. Lipovetsky comenta sobre a existência de um processo de personalização do indivíduo que “corresponde ao agenciamento de uma sociedade flexível baseada na informação e no estímulo das necessidades, no sexo e na consideração dos fatores humanos”.

Toda essa subjetividade acabou por estimular a fragmentação do ser, que diante de práticas sociais descontínuas viu uma pluralidade de identidades surgirem impossibilitando sua posição de “sujeito unificado”. Neste contexto, a moda, enquanto fenômeno social que identifica, caracteriza, cria sonhos e desperta desejos nas pessoas, a moda definida por Lipovetsky é:

“A moda não é mais um enfeite estético, um acessório decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular... a moda terminou estruturalmente seu curso histórico, chegou ao topo de seu poder, conseguiu remodelar a sociedade inteira à sua imagem: era periférica, agora é hegemônica.” (LIPOVETSKY, 1989, p.12)

Cria uma rede de relacionamentos com o indivíduo e seus fragmentos integrando tanto sua subjetividade quanto sua construção identitária, impondo modelos de beleza relacionados ao corpo humano. O papel da moda passa ser então o de demarcar papéis e lugares sociais, a fim de compor o sujeito em suas várias identidades. A moda está relacionada ao processo de diferenciação do indivíduo, e hoje não é mais entendida como signo de classe na sociedade, se comparar com décadas passadas. Ela promove o indivíduo, visando o prazer, a comodidade e a liberdade; e se caracteriza pelo desperdício, pela criação incessante de pseudo-necessidades e pelo hiper-controle da vida privada. Gerou um mundo de aparências, fez surgir questões como o status, a atração e a estética, realçando cada vez mais a sedução, beleza e estilo.

Porém, nesse mundo coexiste a valorização da estética e a ausência do conteúdo, gerando indivíduos fúteis e relações superficiais, em outras palavras, gerou uma sociedade que vive do status unicamente visual. Existe um ditado popular que pode descrever bem o peso que a moda exerce na sociedade, que julga e institui valores ao indivíduo pela aparência: “Você é o que você veste”. A pós-modernidade trouxe novas concepções que alteraram os pilares da sociedade. As diversas transformações pelas quais o indivíduo passa – e que acompanham a transformação da própria sociedade em busca de novas projeções – revelam a solidão contemporânea, em que o homem parece ter medo de si próprio, de sua força e de suas qualidades frente à supremacia da nova era tecnológica.